A bibliografia de Thales de Azevedo inclui, além de uma persistente atividade de articulista, com próximo de 2000 artigos publicados em A Tarde (Salvador), cerca de duzentos e cinqüenta ensaios em periódicos e publicações avulsas e quase três dezenas de livros – entre eles várias monografias, dez coletâneas de ensaios seus e dois livros de ficção-documentário. Vários de seus livros tiveram mais de uma edição, conforme lista a seguir.

 
> Gaúchos: notas de Antropologia Social. 1943
> Os Comunistas, o comunismo e a doutrina social católica. 1945
> Povoamento da Cidade do Salvador. 1949
> Povoamento da Cidade do Salvador. 1955
> Povoamento da Cidade do Salvador. 1969
> Civilização e mestiçagem. 1951
> As elites de cor numa cidade brasileira. 1996 - Les élites de couleur dans une ville brésilienne. 1953, 1955
> O catolicismo no Brasil: um campo para a pesquisa social. 1955
> Ensaios de Antropologia Social. 1959 e 1960
> Problemas Sociais da Exploração do Petróleo na Bahia. 1959
> Antecedentes do homem. 1961
> As ciências sociais na Bahia: notas para sua história. 1964 e 1984
> Cultura e situação racial no Brasil. 1966
> A evasão de talentos; desafio das desigualdades. 1968
> História do Banco da Bahia(1858/1958). 1969
> Namoro à antiga: tradição e mudança. 1975 e 1986
> Democracia racial: ideologia e realidade. 1975
> Italianos e gaúchos: os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul. 1975 e 1982
> Feira de Sant'Ana passado e presente. 1976
> Igreja e Estado em tensão e crise: a conquista espiritual e o padroado na Bahia. 1978
> Namoro, religião e poder. 1980
> Os brasileiros: estudos de caráter nacional. 1981
> A religião civil brasileira: um instrumento político. 1981
> Foi Deus não acontecer nada. 1984
> As regras do namoro à antiga. 1986
> Ciclos da vida: ritos e ritmos. 1987
> Italianos na Bahia e outros temas. 1989
> A guerra aos párocos: episódios anticlericais na Bahia. 1991
> Pragas e chagas na poesia et coetera. 1992
> A filha do alferes: nos arredores das Guerras do Sul. 1993
> Os italianos no Rio Grande do Sul: cadernos de pesquisa. 1994
> A Francesia Baiana de Antanho
> Revistas da Bahia. 1995

 

 


Depoimentos Extraídos do Livro

Gaúchos: notas de Antropologia Social.
Salvador: Ed. do autor, impresso na Tipografia Naval, 1943. 76p; 1958 e 1993

" Tendo estado no Rio Grande do Sul, o sr. Thales de Azevedo se enamorou de tal modo da paisagem cultural daquela região brasileira que o estudo sociológico das coisas riograndenses do sul a hoje, sendo a sua especialidade - que continua a medicina social - o seu maior entusiasmo. E e bom que a paisagem social do Rio Grande do Sul se apresente aos nossos olhos estudada com simpatia por um bahiano tão de sua província como o sr. Thales de Azevedo. Bom que os provincianos, no Brasil, se estudem: os de umas províncias aos de outras.
... todos os que vem acompanhando as notas já publicadas pelo sr. Thales de Azevedo sinceramente desejam que resulte um livro. Pois na"o será improvisado ou escrito só pela vontade de publicar coisa que pareça sociologia ou ciência social. Será um livro que de fato reunirá esclarecimentos valiosos sobre aspectos ainda pouco estudados da formação social do Rio Grande do Sul. "
Gilberto Freire
 

   
 

Os Comunistas, o comunismo e a doutrina social católica.
1945.

Efetivando seu programa de divulgação cultural sobre temas sociais, a ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL DA BAHIA publica o presente trabalho de Thales de Azevedo, seu diretor-fundador e catedrático de Antropologia da Faculdade de Filosofia da Bahia, como o primeiro de uma série que é seu propósito editar.
Tratando-se de uma conferência proferida pelo A. como Presidente da Ação Católica Brasileira na Bahia por ocasião do comício anti-comunista de 27 de novembro último, nada mais seria mistér acrescentar para ressaltar a grande atualidade do assunto.
Estudando o comunismo nos múltiplos aspectos em que deve ser objetivamente analisado, quer como doutrina, quer como solução que alguns propõem para o Brasil, o dr. Thales de Azevedo vem confirmar o renome que merecidamente desfruta como autor de "Gauchos".
Em "Os comunistas, o comunismo e a doutrina social católica", os católicos e os leitores em geral encontrarão uma orientação segura a respeito do magno problema, versada em linguagem precisa e clara, apesar da complexidade do tema, ao mesmo tempo muito serena, muito humana e firme, apesar da combatividade do Autor.
T. P. F.
 

   

 

Povoamento da Cidade do Salvador.
Salvador: Prefeitura Municipal, 1949. 415p;

PREMIO ALIANÇA DA BAHIA
A Comissão abaixo assinada, incumbida pela diretoria da Companhia Aliança da Baleia de julgar as obras que concorreram ao prêmio literário por essa Companhia instituído para comemorar o quarto centenário da fundação da Cidade do Salvador, deixa aqui consignado o seu parecer.
Dentro do prazo legal e nas condições exigidas pelos editais, foram-lhe remetidos quinze livros, alguns publicados até junho de 1950, outros em originais, sendo um em poesias, Baleia Flôr, de Wilson W. Rodrigues, dois romances, Destino, de A. Soares de Azevedo, e Acauã, de Mario Brandão Torres, e doze ensaios históricos, Ruy Barbosa, ministro da independência econômica do Brasil, de Humberto Bastos, Baianos ilustres, de Antonio Loureiro de Souza, Os Presidentes da Província da Bahia, de Arnold Wildberger, História da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Seráfico Padre São Francisco da Congregação da Bahia, de Marieta Alves, Alma e Corpo da Bahia, de Eduardo Toucinho, A Bahia de Todos os Tempos, de Belmiro Valverde, A Idade de Ouro da Bahia, de J. F. de Almeida Prado, História da Literatura Baiana e História da Fundação da Bahia, de Pedro Calmos, A Fundação da Cidade do Salvador em 1549, de Edgard de Cerqueira Falcão, acompanhado pelo folheto explicativo Contestações, do mesmo autor, Povoamento da Cidade do Salvador, de Thales de Azevedo, e História Política e Administrativa da Cidade do Saltador, de Afonso Rui.
 

   

 

Povoamento da Cidade do Salvador.
Salvador: Prefeitura Municipal, 1955. 
   

 

Povoamento da Cidade do Salvador.
Salvador: Prefeitura Municipal, 1969. 

" O Povoamento da Cidade do Salvador rende-se agora às exigências do crescente círculo de amantes do passado da Bahia para entrar em terceira edição.
Fosse embora o seu âmbito circunscrito pelo programa das publicações por ocasião das comemorações do Quarto Centenário da Fundação da Cidade do Salvador, ele nos dá, isso não obstante, uma visão clara das variadas origens e fusões dos seus habitantes, ao tempo em que põe a nu as raízes dos nossos problemas sociais do momento, para culminar em advertências e sugestões.
É um livro que só nos poderia oferecer quem, por longo tirocínio, abrangesse de relance a ocupação da terra baiana com as suas vicissitudes conatas. E, Thales de Azevedo enfronhara-se no exame do seu desenvolvimento histórico por uma série progressiva de estudos parciais.
Ainda na Faculdade de Medicina elaborou substanciosa pesquisa sobre as Doenças e o seu tratamento entre os nossos índios. Filia-se a essa época A tuberculose no Brasil pré-cabralino.
Alguns anos de prática médica no sertão somariam a esses estudos de gabinete os recortes do vasto repertório da medicina popular com o seu legado de crendices, usos e abusões.
Na Secretaria da Saúde Pública a experiência servir-lhe-ia de guia para alvitres e publicações conexas. Citemos dentre estas: A xeroftalmia nutritiva e tracoma na Bahia; Um esquema de pesquisas etnográficas sôbre alimentação; o Padrão alimentar da população da Cidade do Salvador e Uma pesquisa sôbre suplementação nutritiva em escolas.
Nova dimensão lhe daria aos estudos a Cátedra de Antropologia, na Faculdade de Filosofia. Começam então a surgir, ao lado de numerosa colaboração avulsa, artigos e estudos como: Uma interpretação da Bahia; Les élites de couleur, publicado pela ONU e, transpondo as fronteiras da Bahia, Os Gaúchos, onde aborda os problemas gerais da integração do colono no Brasil Meridional; Ensaios de Antropologia Social; Cultura e Situação Racial no Brasil e, mais recentemente, A Evasão de Talentos.
Não deve, pois, surpreender que coubesse a Thales de Azevedo a exposição e análise do povoamento da Bahia. A incumbência deu-lhe ensejo, fartamente aproveitado, para estender-se em comentários ponderados. ilações e advertências oportunas, que, decorridos vinte anos, entraram finalmente nos programas governamentais como projetos de urgência.
Povoamento da Cidade do Salvador,
que necessàriamente abrange também os domínios dos habitantes da capital baiana, não pode faltar nas estantes de quem se interessa pelo nosso desenvolvimento social. "
FREDERICO G. EDELWEISS
 

   

 

Civilização e mestiçagem.
Salvador: Ed. Progresso, 1951. (Ensaios, Série Miniatura, 6), 69p.
   
 
As elites de cor numa cidade brasileira
Paris: UNESCO, 1953, 107p; 1955 e 1996 (em português).
Les élites de couleur dans une ville brésilienne
.

Fruto de vários ciclos de pesquisa e de uma atenção variada por elementos do cotidiano, a bibliografia de Thales de Azevedo cobre temas de medicina, nutrição e alimentação, etnografia histórica, história, relações Estado-Igreja e sobretudo antropologia social, através da qual abriu vários novos temas às ciências sociais no Brasil. São mais de duzentos e cinquenta artigos e textos avulsos, duas dezenas de livros - sendo dois de ficção-documentário, dez coletâneas de ensaios seus e uma persistente atividade periodística, desde 1923 até a semana de sua morte. Nessa obra, destacam-se os estudos de relações raciais, de que o texto As elites de cor, originalmente publicado pela UNESCO em Paris, sintetiza uma posição progressivamente revista até os artigos que compõem a coletânea Democracia racial; ideologia e realidade.
 

   
 

O catolicismo no Brasil: um campo para a pesquisa social.
Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1955. 70p.

Estudo pioneiro do grande antropólogo, que trata o catolicismo no Brasil, de modo particular, encarando-o de um ponto de vista predominantemente sociológico, em face ao grande interesse que existe nas ciências sociais pelos estudos da religião.
Escrito, em 1955, e agora republicado através da Coleção Nordestina, este trabalho permanece insuperado, não tanto pelo que revela sobre o catolicismo, pois hoje os temas nele tratados são largamente assimilados, mas pela sua postura metodológica. O autor az um "cadastro" completo do catolicismo no país e procura saber como o mesmo é, slcut stat, realisticamente. O texto se insurge contra o uso de certos estereótipos como "ignorância religiosa" e quebra uma lança a favor de um estudo sério do catolicismo praticado pelas camadas populares em relação ao problema da "Penetração das Seitas", que tanto ocorre em nossos dias.
 

   
 


Depoimentos Extraídos do Livro
 
Ensaios de Antropologia Social.
Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1959, 183p; e 1960.
   
 
Problemas Sociais da Exploração do Petróleo na Bahia
1959.
   
 
Antecedentes do homem.
Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1961, 76p.
   
 

As ciências sociais na Bahia: notas para sua história.
Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1964, 81p; e 1984.

" É digno de nota o fato de vir a Bahia contribuindo, desde dias já clássicos, criativamente, para o desenvolvimento, no Brasil, de Ciências do Homem adaptadas a situações caracteristicamente brasileiras. Nina Rodrigues pode ter sido de origem geográfica maranhense, ao mesmo tempo que israelita sefárdico em suas raízes culturais. Mas foi na Bahia, e por ela condicionado, que realizou, como em laboratório ideal, seus magistrais estudos sobre o negro enraizado no Brasil. O mesmo se diga do francês Pierre Verger: outro antropólogo criativo que, de origem, no seu caso, européia, realizou-se na Bahia.. Quase nascido de novo, na Bahia, foi aí que encontrou ambiente exato para centro dos seus estudos afrobrasileiros, hoje continuados por baianos ilustres, um dos quais outro mestre: Vivaldo Costa Lima. E Anísio Teixeira, outro baiano sem ter sido antropólogo específico, deu à sua atividade de educador magnífico perspectivas socioantropológicas e ecoantropológicas.
Compreende-se que Thales de Azevedo tenha se sentido baianamente tocado pela mesma vocação: a de antropólogo sóciocultural. E a desenvolvida, a seu modo, juntando ao profundo convívio de nativo com a realidade humana da sua terra, contactos com outras regiões brasileiras e estágios em meios sofisticados estrangeiros.
Chega, assim, a idade provecta, amadurecido, no seu saber de antropólogo sociocultural, por vivências e por contactos os mais valiosos. De onde ter o direito de ser ouvido como um mestre brasileiro sempre baiano na sede de suas atividades irradiantes. Ouvido e respeitado por brasileiros e estrangeiros pelo que nele é, junto ao muito saber, exemplar honestidade intelectual. Exemplar empenho ético de completar incessantes estudos e sucessivas pesquisas sociocientíficas por um belo desempenho de uma, para ele, quase religiosa missão didática. O cumprimento do dever de transmitir, comunicar, passar adiante, saberes acumulados.
Thales de Azevedo é, mais que um indivíduo excepcionalmente criativo, homem que se tornou instituição: transindividualizou-se, portanto. Transindividualizou-se e, de certo modo, transabrasileirizou-se no seu modo de considerar situações coletivamente humanas ao lado das especificamente individuais... "
Gilberto Freire
 

   
 

Cultura e situação racial no Brasil.
Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1966, 199p.

" Um dos desafios com os quais se defronta o Brasil no século vinte é a precariedade dos conhecimentos acumulados sôbre os seus problemas. Alguns dos pontos mais obscuros da chamada revolução brasileira, que vem se desdobrando desde fins da Primeira Guerra Mundial, estão ligados ao caráter da civilização que se desenvolve no País. Esta obra é uma contribuição importante para o conhecimento de aspectos fundamentais da cultura e das relações sociais no Brasil.
Uma parte essencial das realizações intelectuais de Thales de Azevedo está relacionada com a explicação dos processos culturais e sociais que governam a sociedade brasileira. Entre as suas obras publicadas, destacam-se: Povoamento da Cidade do Salvador. As Elites de Côr (Um Estudo de Ascensão Social) e O Catolicismo no Brasil. São trabalhos em que se examinam alguns temas básicos da sociedade nacional.
Em Cultura e Situação Racial no Brasil, Thales de Azevedo retoma problemas cruciais. Entre outros, discute: as relações entre mestiçagem, preconceito, estereótipos e status social; as discrepâncias e congruências entre o comportamento verbal e o comportamento efetivo, no quadro das relações raciais; a estrutura da família, tendo em vista os diferentes graus de integração social, a duplicidade. dos padrões morais, etc.; retoma os problemas da catequese e colonização, que atravessam tôda a história nacional; sugere lineamentos para uma sociologia religiosa preocupada com o catolicismo, o sincretismo religioso, etc. Esses são alguns dos temas examinados na obra. Ao discuti-los, apresentando interpretações sôbre êles, Thales de Azevedo sempre leva em conta as contribuições anteriores sôbre os mesmos assuntos. Por isso, os diferentes capítulos dêste livro são também um balanço do que tem sido realizado pela antropologia e pela sociologia. A apresentação das questões caracteriza-se por uma criteriosa descrição e interpretação dos fatos.
O povo brasileiro entrou de nôvo numa etapa de reflexão crítica sôbre si mesmo. E as ciências sociais têm um papel básico a desempenhar nessa tarefa. A importância de Cultura e Situação Racial no Brasil está em que se insere totalmente nesse esfôrço de pesquisa objetiva da realidade nacional. Por essa razão, esta obra se coloca como mais uma contribuição fundamental ao esclarecimento de processos culturais e sociais que estão na base dos problemas brasileiros. Em outras palavras, êste livro demonstra que os cientistas sociais estão sériamente empenhados em contribuir para esclarecer os dilemas nacionais. "
OCTAVIO IANNI
 

   
 

 
Depoimentos Extraídos do Livro

A evasão de talentos; desafio das desigualdades.
Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1968, 153p.

Em um país como o Brasil, onde a necessidade de dispor de todo o seu material humano mais qualificado, para superar os obstáculos do subdesenvolvimento, encontra uma urgência sempre maior a cada novo momento, pode-se bem compreender a dramaticidade de um problema como o da drenagem de talentos pelos países que oferecem melhores condições de trabalho, remuneração e aperfeiçoamento, notadamente os Estados Unidos. Visando à denúncia desta situação de perda constante é que Thales de Azevedo escreveu A Evasão de Talentos.
Obra pioneira entre nós, mas já inserindo-se no conjunto de contribuições que a realidade brasileira está exigindo de todos os pensadores interessados na sua autêntica pesquisa e equacionamento. Há, nesta obra, a crítica fundamental a um sistema de ensino que, ao invés de aproximar o homem do mundo em que vive e apóia seus pés, o afasta deliberadamente e o coloca na condição de estranho na sua própria terra, sem as raízes que o poderiam prender a ela.
 

   
 

et  al. História do Banco da Bahia(1858/1958),
Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1969, 271p. 

DO PREFÁCIO
" Um dos atos comemorativos do centenário do Banco da Bahia teria sido o lançamento de uma história daqueles cem anos de atividades e de serviços à Nação. Assim desejaram Clemente Mariani e Fernando de Góis quando me confiaram a tarefa de escrever aquela história, que as circunstâncias, como fôra previsto, não me permitiram concluir para a ocasião.
As dificuldades de planejamento e elaboração de um trabalho como o que se tenta neste livro começam no terreno teórico, nessa área de opção entre uma abordagem historiográfica, descritiva, e uma exploração sócio-histórica ou histórico-cultural, explicativa e compreensiva.
Daí que esta história do Banco da Bahia procura ser a um tempo memória e explicação. O relato, trabalhado embora sem a preocupação de erudição teorética, mas, na verdade, inspirado nos princípios expostos, transborda de uma história interna do estabelecimento para um esfôrço de análise do papel daquele na vida da Bahia e mesmo do Brasil nos cem anos decorridos desde 1858. Êsse o motivo por que a atividade da emprêsa é examinada simultaneamente em face da evolução do sistema bancário nacional desde as suas origens no pensamento dos estadistas e administradores da colônia e da metrópole, e em referência à vida da província e da nação nos períodos que mais proximamente antecederam a organização do Banco como daqueles em que se desdobrou a existência dêste como peça e mola ativa dos acontecimentos.
Do planejamento e da elaboração desta monografia fortalece-se a convicção de que um dos domínios da vida baiana a explorar com urgência e por meio de investigadores experientes, é a história econômica. Em 1952 um historiador norte-americano que acabara de realizar exaustiva pesquisa sôbre a economia cafeeira no município de Vassouras, Estado do Rio, o Dr. Stanley Stein, em encontro na Widener Library da Universidade de Harvard, sugeria-me a organização na Bahia de um Instituto de História Econômica que tomasse por primeiro tema de suas indagações o surto industrial da segunda metade do século passado: acreditava êsse competente investigador, cuja obra é citada num dos capítulos dêste estudo, que seria de sumo interêsse para compreender as dificuldades da indústria na Bahia atual, o conhecimento dos fatôres de êxito e de ulterior fracasso das manufaturas baianas daquela época. Tive ocasião de dar... "
 

   
 
Namoro à antiga: tradição e mudança.
Salvador: Ed. do autor, 1975, 69p; e 1986.
   
 
Democracia racial: ideologia e realidade.
Petrópolis: Ed. Vozes, 1975, 107p.
   
 
Italianos e gaúchos: os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul.
Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1975 310p; e 1982.

Os cultores das ciências humanas, da sociologia à antropologia, são sujeitos estranhos e simpáticos: vivem de apontamentos e cadernetas com anotações ou com idéias ainda em embrião.
Nada é mais elucidativo e mais interessante do que o confronto desses materiais preparatórios, do controle das fontes e do seu tratamento, com a obra definitiva.
   
 
Feira de Sant'Ana passado e presente
1976.
   
 

Igreja e Estado em tensão e crise: a conquista espiritual e o padroado na Bahia.
São Paulo: Ed. Ática, 1978, 179p.

As mudanças políticas no seio da Igreja e a atuação social dessa instituição no Brasil atual são alguns dos temas da sociologia e da historiografia hodiernas, no país como no exterior. A essas análises tem faltado, contudo, um aprofundamento dos antecedentes das mudanças verificadas. Igreja e Estado em Tensão e Crise é uma provocação ao debate de uma série de problemas que, em geral, não se tem posto em suficiente relevo quando se examinam as tensões e crises entre a hierarquia eclesiástica e o poder secular. procura ir às raízes de várias características da "conquista espiritual" como o inovador método aculturativo da catequese, a "guerra justa", o aldeamento dos índios e suas implicações econômicas.
O livro contesta ainda a afirmação de que a Igreja, tão interessada pelos índios, não houvesse tomado posição diante da escravatura negra.
Merecem atenção neste ensaio a objetividade da argumentação e a segura documentação em que se apóia.
 

   
 

Namoro, religião e poder.
Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, 143p.

Professor de Antropologia e Etnologia, internacionalmente conhecido nesses campos de estudo, tendo representado o governo da Bahia, em convênio com a Universidade de Columbia, em pesquisas sociais, conferencista em universidades européias, como de Lisboa, Coimbra, Madri, Paris, Toulouse, Poitiers, Bordeaux, professor visitante nas universidades de Columbia, Wisconsin, Washington, Lisboa, Lambayaque, do Peru, e Madri, THALES DE AZEVEDO é uma autoridade em estudos antropológicos e etnológicos do homem brasileiro e de seus múltiplos aspectos culturais.
Namoro, religião e poder, composta de alguns de seus trabalhos publicados anteriormente em revistas, é atual porque é permanente pela sua natureza, de trabalhos que trazem novas luzes à melhor compreensão das causas e efeitos sociais da fixação cultural do homem nordestino, notadamente da Bahia, como vemos no capitulo "Cultural e biológico em Antropologia".
Na segunda parte, "Religião e Poder" analisa o papel da Igreja em relação ao Estado, e os aspectos da religiosidade do nosso povo e sua relação com os demais fenômenos sociais ligados a essa religiosidade.
Em "Fazer a corte no Brasil: o namoro e a paquera", o Autor tece admiráveis considerações sobre a família em relação ao namoro e ao noivado, sempre do ponto de vista antropológico. Em "A `Capela' como unidade de vizinhança no Brasil mericional", encontramos a análise das correntes migratórias no Brasil e a importância da Capela como elemento de aglutinação e de reformulação comunitária.
Namoro, religião e poder é obra que passará a ser fonte de consulta aos estudiosos da formação e do desenvolvimento da sociedade brasileira.
E, enquanto de grande profundidade na sua temática abordada, é de leitura amena pela simplicidade do estilo de Thales de Azevedo.
 

   
 

Os brasileiros: estudos de caráter nacional.
Salvador: Centro Editorial e Didático da Universidade Federal da Bahia, 1981, 64p.

0Brasil concebe-se como pacífico e pacifista, isto é, desambicioso das terras e dos bens dos outros povos, partidário da arbitragem e do direito das gentes, contrário à conquista e à guerra, adepto da não-intervenção nos negócios e problemas de outras nações, com uma história de revoluções sem derramamento de sangue e mesmo com flores, oposto às discriminações por motivo de raça, religião, até de ideologia, paciente, cordato, alegre, sonhador... Essa imagem tanto é cultivada oficialmente a nível internacional, quanto serve a fins políticos no próprio país. Mas será que tem algum fundamento na realidade? Difícil é responder particularmente quando alguns lançam dúvidas ou fazem objeções a esse estereótipo.

   
 

A religião civil brasileira: um instrumento político.
Petrópolis: Ed. Vozes, 1981, 142p.

Os conflitos e os compromissos da religião e da Igreja para com o Estado brasileiro têm sido, ultimamente, matéria de importantes pesquisas de historiadores e outros cientistas sociais. As abordagens até agora adotadas nesses estudos, de diferentes perspectivas teóricas, não haviam, entretanto, utilizado o conceito de "religião civil": concebido por Jean Jacques Rousseau como norma e estratégia de governo e política, refere-se aos dogmas e princípios religiosos e transcendentes empregados pelo Estado para motivar os cidadãos à solidariedade social, à conformidade e adesão aos planos, ideologias e projetos do poder, à submissão à ordem estabelecida, seja nos sistemas autoritários ou nos democráticos. Esse conceito, por sua vez, constitui um instrumento para análise sociológica das posições do Estado e da sociedade para com os valores, os mitos, as crenças, a ética, a fé das populações enquanto manipulados em proveito do exercício do poder. No ensaio A Religião Civil Brasileira o antropólogo Thales de Azevedo, autor de vários livros sobre o povoamento do país, sobre relações raciais, evasão de talentos, assimilação de imigrantes, religiosidade popular e relações entre Igreja e Estado, faz uma documentada análise de como no Brasil, desde a Colônia até a Revolução de 64, o catolicismo, o positivismo e certo humanismo pragmático têm servido de suportes a regimes e sistemas, a governos e revoluções, a políticos, militares e tecnocratas. Pela originalidade da abordagem e pela evidente oportunidade do tema, o livro interessará a quantos buscam a compreensão da vida política do país no passado e na atualidade.
 

   
 

Foi Deus não acontecer nada.
São Paulo: Ática, 1984, 77p. (Novela)

O País em ebulição política. A crise econômica internacional, atingindo duramente o País, enfraquece o poder dominante, o que propicia o crescimento da oposição. Há um clima de tensão generalizada e pesa a incerteza quanto ao futuro. Esse era o Brasil de 1929. Na verdade, nessa época, estava sendo aceso o estopim de uma revolução.
Foi Deus não acontecer nada focaliza um município do Espírito Santo vivendo sob esse clima efervescente. Canarana - uma cidade pequena, porém promissora, onde convivem figuras como o antigo médico conservador e o advogado, deputado estadual da oposição - tem sua vida subitamente abalada pela chegada de um delegado de polícia, enviado especial do governo do Estado.
A partir daí desenrola-se a trama, centrada na ambigüidade da figura do delegado, cuja atuação é correta para uns e cheia de cumplicidade para outros. Tal polêmica passa a integrar o hábito diário das rodas que freqüentam a botica, a porta das lojas principais, os chás femininos, as mulheres de casas abertas, locais onde normalmente são assuntados quaisquer fatos perturbadores da linha horizontal do cotidiano.
0 Autor vai, assim, descrevendo com minúcia os grupos da província, bem como os tipos isolados: o louco, o tísico, a musa, desenhando a roda dinâmica e comunicativa das pequenas comunidades.
Thales de Azevedo escreveu uma novela que é uma crônica do cotidiano da província, cujo sentimento se insere no corpo maior da Nação naquele momento. A população, tocada pelo pressentimento da mudança, intuía um futuro de transformações profundas na história do País.
 

   
 

As regras do namoro à antiga.
São Paulo: Ática, 1986. Revisão e ampliação de Namoro à antiga, 1975.

No noticiário jornalístico, na crônica, no conto e no romance, no aconselhamento matrimonial, o namoro e o noivado foram sempre caracterizados e distiguidos no Brasil como fases e tipos de relacionamento entre sexos e como formas de fazer o corte para a escolha de cônjuges; o mesmo se verifica nos estudos do casamento e da família. Porém, tanto naquelas descrições como nas análises socioantropológicas nem sempre se fixam sistematicamente as táticas e técnicas, as normas, os princípios e os valores que organizam e estruturam tais relações. Neste ensaio de Thales de Azevedo faz-se uma tentativa de estabelecer, a partir do passado, a identidade e tipicidade do namoro, do compromisso e, de até certo ponto, do noivado e mesmo dos papéis de marido e mulher. Isto se procura fazer pelo exame das narrativas de escritores, ficcionistas e cientistas sociais que se tem ocupado do tema na sociedade brasileira, seja quanto a usos e costumes antigos, seja no tocante a tempos recentes, numa variedade de autores como Luís Edmundo, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac, Afrânio Peixoto, Câmara Cascudo, Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Jorge Amado. Para a origem dos critérios e valores que regem a comunicação e aproximação dos sexos com aqueles intentos tomam-se em consideração velhas idéias e conselhos de moralistas, de psicólogos, de homens de letras em dramas e comédias, em críticas e comentários, em tratados de educação e de moral, em guias de namorados e de casados, desde séculos - Moliére, dom Francisco Manuel de Melo, Júlio Dantas.
Nesta abordagem comparativa e diacrônica examinam-se transculturalmente - em dados sobre Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Estados Unidos - os padrões e as instituições brasileiras no namoro, da virgindade, do flerte, do "barricão", da alcoviteira, da solteirona e, finalmente, da paquera, em vista de verificar a evolução e persistência, assim como as transformações do namoro.
 

   
 

Ciclos da vida: ritos e ritmos.
São Paulo: Ed. Ática, 1987, 87p.

A existência dos seres vivos é marcada por processo formação, nascimento; crescimento, reprodução e extinção. São etapas que se sucedem em diferentes ritmos e, para o homem, também com ritos determinados.
Nessa perspectiva, o Autor analisa o ciclo de vida e seus ritos, as etapas de crescimento do homem, a questão do casamento, os exorcismos do corpo e da alma e, finalmente, os rituais da morte.
Thales de Azevedo é médico e professor universitário aposentado de Antropologia da Universidade Federal da Bahia. Publicou, entre vários títulos, A religião civil brasileira, Italianos e gaúchos e As regras do namoro à antiga.

   
 


Depoimentos Extraídos do Livro

Italianos na Bahia e outros temas.
Introdução. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1989, 112p.

A Secretaria da Cultura do Estado e a Empresa Gráfica da Bahia não poderiam ter escolhido autor melhor para inaugurar a sua coleção TERRA PRIMAZ, que vai publicar trabalhos relevantes para o entendimento da formação e desenvolvimento da sociedade baiana. O antropólogo Tales de Azevedo, internacionalmente conhecido por suas pesquisas e rigor metodológico, aliado a um vibrante espírito de modernidade, brinda o público leitor com "Italianos na Bahia e Outros Temas".
O livro mostra a influência dos italianos, mesmo como grupo étnico minoritário. na trajetória da nossa vida política, econômica, cultural e conformação demográfica da nossa terra. Aliado a este texto. "A Francesia Baiana de Antanho" também nos dá informações sobre a a influência de outro povo europeu na cultura baiana - o gaulês. Finalmente, "A Praia como Espaço Socializante" é um ensaio instigante sobre o desenvolvimento através dos tempos, da "cultura praieira". que hoje predomina na maior parte das cidades litorâneas brasileiras.
 

   
 


Depoimentos Extraídos do Livro
A guerra aos párocos: episódios anticlericais na Bahia.
Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1991. 156p. 

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Nestas páginas tenho em mente um registro, meramente noticioso, narrativo, de eventos a que denomino de anticlericais que se desenrolaram na Bahia durante o findante século XX. O tema é de uma complexidade extraordinária, a começar pela fixação da natureza da manifestação. Difícil é, na verdade, definir - para além de sentidos de outros fenômenos sociais na área da religião - o que seja anticlericalismo. Um primeiro cuidado há de ser o de distinguir essa expressão de sentimentos e de convicções de agnosticismo, de ateísmo, de 'indiferença, de alheiamente à religião sem ataques à instituição e ao clero. Tomo o vocábulo no sentido de manifestação pública de oposição ao instituto eclesial com hostilidade manifesta. É o que procuro fazer no capítulo inicial, num esboço de abordagem teórica e historiográfica ao tema.
No quadro aqui traçado, tentando ser objetivo e bem avaliando as incompreensões que o melindroso tema acarreta, incluo apenas episódios que configuraram conflitos, não me ocupando de declarações e afirmações individuais, que cariam, imagino, numa análise das idéias vigentes a determinado momento num meio social. Um segundo cuidado tem a ver com o relato, idealmente isento e imparcial em exposição pensada como contribuição à história... "
 
   
 

Pragas e chagas na poesia et coetera.
Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1992, 157p.

É uma luminosa presença a de Thales de Azevedo na cultura baiana e brasileira: são sessenta e cinco anos de produção científica e diuturna, desde a publicação do seu primeiro trabalho, em 1927, intitulado O médico e a castidade.
Literatura médica no princípio, e, logo depois, conduzida para os caminhos da antropologia, sociologia e historiografia-na linhagem dos grandes intérpretes da vida brasileira - a obra de Thales de Azevedo é uma construção permanente de temas os mais variados e, em última instância, a elaboração de um edifício instigante para as novas gerações.
Sua vida de intelectual e professor universitário Emérito-na Bahia, pelo Brasil afora e no exterior constitui-se para todos os seus amigos e discípulos um exemplo a perseguir.
Pragas e Chagas na Poesia et Coetera está composto de dois ensaios: o primeiro tratando de doença, medicina e poesia, sendo os poetas aqueles que traduzem as mágoas e as chagas que nos fazem sofrer e de que eles mesmos padecem, num arco poético que vai de Camões, passando por Dorival Caymmi, até a voz e a letra do Grupo Titãs -roqueiros da nossa música popular - com incurssões em Gregório de Mattos, Cruz e Souza, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, dentre tantos - expoentes da nossa literatura -e na abordagem de várias doenças que entram e saem de moda, mas permanecem no imaginário, no sofrimento e na hipocondria de cada um - poeta ou não - em cada momento.
O segundo ensaio é a história da assistência social na Bahia, escrito em 1977, e até agora inédito, O Socorro aos desvalidos / esboço de história da assistência social na Bahia, revelando, deste modo, uma preocupação e aproximação antecipadora, do ponto de vista historiográfico, com um tema de grande atualidade na literatura histórica do presente.
Este precioso e preciso livro de rales de Azevedo trata, de resto, temas correlatos, em certa medida, pois as doenças estão, muitas vezes associadas às obras de misericórdia, com a presença marcante das confrarias, irmandades, conventos, poder público, assistência eclesiástica e privada, no trato com males que afligem e atemorizam não só no caso brasileiro recente, o flagelo de uma péssima assistência médica hospitalar pública, preventiva e curativa.
Esta lição de rales de Azevedo interessa, particularmente, a todos os leitores, poetas ou não.
Fernando da Rocha Peres
 

   
 
A filha do alferes: nos arredores das Guerras do Sul.
Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1993. (Conto e memória)

" Hoje, vencidos muitos e muitos anos de intenso labor intelectual ele pode parecer uni velhinho. Carinhosamente sim. Em verdade, porém, situando-o na paisagem cultural de sua terra, deve ser considerado, como ênfase, um grande velho. Um dos maiores velhos destes dias novos. Seu nome completo: Thales Olympio Góes de Azevedo.
Singular personalidade baiana, o professor emérito da UFBA não abandonou a Província. Ficou aqui, como Orlando Gomes e José Silveira, para ser conhecido ali, além, acolá, nas diversas esferas intelectuais do País. Perquiridor consciencioso, contou conto se realizou o povoamento do Estado, mostrou aspectos fundamentais da religiosidade brasileira, recordou o namoro de outrora, falou a respeito da cultura negra, fixou aspectos da psicologia dos gaúchos, apontou a participação de grupos italianos em nossa formação. Debateu, com lúcida vivência, o problema universitário ria Bahia. .Nunca foi homem de uma nota só. Todos os temas de suas elocubrações merecem, invariavelmente, a consideração dos especialistas regionais ou nacionais. Suas obras, que são inúmeras, enriqueceras as bibliografias que versam sobre as matérias tratadas por Thales de Azevedo. É sempre citado e aceito. Encontrou a fórmula ideal para enfrentar os vai-e-vem da velhice: continuar trabalhando no campo intelectual, como vem fazendo desde os tempos de sua juventude.
Fiel enamorado da ciência, Thales de Azevedo, vez por outra, manténs namoricos cone a ficção. Penso que, se quisesse, poderia ter mantido relações mais duradouras com o conto. Possui um jeito especial no trato com o gênero. A prova evidente está no presente livro, que tenho a honra e a satisfação de prefaciar.
O caso é simples, porém está bem contado. Reúne passagens das guerras do Prata e fatos do Aracaju nos seus primeiros tempos como capital de Sergipe. O enredo descola-se da cidade de Inácio Barbosa para a longínqua rio-grandense Bagé e retorna a Sergipe. O temário gaúcho, que sempre esteve nas cogitações do ilustre membro da Academia de Letras da Bahia, envolveu-se agora com situações sergipanas. Com antepassados oriundos da Capitania de Sergipe, o antigo diretor da Faculdade de Filosofia quis lembrar os feitos de um dos seus ancestrais. Fê-lo, invocando a verdade histórica enquadrada num pouco de imaginação. O escritor baiano, que integra o Conselho de Cultura da Bahia desde a fundação da entidade, sabe arrumar os diálogos de seus personagens, jogando com os modismos sul-rio-grandenses com precisão. Também é perito na descrição das paisagens, dando-nos um Aracaju menino, que muito se assemelha com o povoado, inesperadamente promovido à capital, no ano de 1855. Se o contista, invariavelmente aberto às objeções da crítica, me permitisse, diria que apenas considerei suntuosa a vivenda de dona Menininha e seu Sebastião, onde começa a história de A filha do alferes. Acho, demasiada a mansão retratada numa urbis nascente, com "casinhas, de palha, forradinhas de melão".
Resumindo e concluindo, gostei do livro. E fico matutando se o antropólogo consagrado não poderá também se transformar num romancista de mérito. Depende, em grande parte, dele próprio. "
JOSÉ CALASANS
 
   
 
Os italianos no Rio Grande do Sul: cadernos de pesquisa.
Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1994.
   
 
A Francesia Baiana de Antanho
 
   
 
Revistas da Bahia
1995.