Thales de Azevedo Pintor
Paulo Ormindo de Azevedo
Mais conhecido como professor e antropólogo, Thales de Azevedo, médico de formação, vendia a imagem de introvertido e sisudo, mas na intimidade era bem diferente, uma personalidade criativa e lúdica. Prosador muitas vezes brincalhão, pintor sensível, poeta bissexto e usuário de todas as novidades tecnológicas que pudessem contribuir para o seu trabalho de professor e pesquisador: câmeras fotográficas, projetores de imagens, gravadores de som, máquina de escrever eletrônica e até uma espécie de xerox de bolso que comprou nos EUA e usava nos arquivos.
É interessante conhecer suas múltiplas habilidades para compreender a diversidade e riqueza de sua obra. Sua curiosidade lúdica se manifestava não só na pesquisa sobre temas pouco estudados, como a vida cotidiana, o namoro e a praia, mas na busca de novas interpretações para as unanimidades consagradas. Se manifestava também nas brincadeiras com os filhos, sempre de caráter educativo, como a montagem de rádios de galena, epidiascópios, a observação de eclipses do Sol com cacos de vidro esfumaçados, a revelação de fotografias, uma delas premiada pela Kodak.
De volta a Salvador, em 1933, depois de morar e clinicar em Castro Alves, Thales começou a pintar marinhas, igrejas, e o casarios dos locais em que veraneou ou passou fins de semana com o uso do óleo e da aquarela. O manuseio das técnicas de pintura se deve, provavelmente, ao aprendizado com sua mãe, Laurinda Góes de Azevedo, dona Lola, e a tia, Laura Góes Batista, que faziam cópias de gravuras e confeccionavam pequenas tapeçarias em ponto de cruz com paisagens urbanas. Mas ele, como elas, nunca frequentou um ateliê de pintura.
Férias passadas nas casas de veraneio da mãe e do tio, João de Góes, em Itaparica, ensejaram a realização das primeiros óleos e aquarelas. Ele era um pintor dos domingos, como se definia. Os óleos de Amaralina foram pintados durante fins de semana passados na casa da tia Laura e seu marido Elias Batista, na época telegrafista dos Correios, que tinha ali uma estação e torre. Suas aquarelas transparentes contrastam com os óleos de azuis e verdes densos.
As aquarelas da Penha e da colina do Bonfim, em Itapagipe, foram também pinturas de fins de semana, feitas à sombra de frondosos tamarindeiros da Avenida Beira Mar, na esquina da Rua Pe. Inácio de Azevedo, onde moravam duas amigas de D. Mariá, sua esposa, a professora Honorina Minho e a enfermeira Belanisia. Ele pinta, no mesmo período, algumas naturezas mortas, especialmente de frutos tropicais.
Em 1941, Thales vai com toda a família em férias conhecer os tios e irmãs de D. Maria, no Rio Grande do Sul. Inicia ali a prática de registrar em aquarelas os locais por onde passava. Essa série é iniciada com duas aquarelas de Porto Alegre e cenas do interior do estado, que percorreu quase todo de trem. Férias no interior da Bahia contemporâneas à sua nova atividade como docente da Cadeira de Antropologia e Etnografia da Faculdade de Filosofia da UFBA, marcam um novo ciclo de sua pintura, ou melhor, desenho, tendo como inspiração a documentação etnográfica.
Entre 1943 e 1945, a família passou férias na Fazenda Rio Seco, distrito de Igreja Nova, em Alagoinhas, hoje município autônomo. A fazenda pertencia ao seu tio, Carlos Azevedo, líder político local. Esta preocupação fica mais evidente em 1945, quando ele faz uma série de nove bicos de penas de cancelas anotando a lápis em um deles os nomes das peças de madeira que as compunham. Essa mesma preocupação etnográfica é evidente numa série de fotos que fez, em 1955, na Vila de Abrantes, onde sua filha, a socióloga Maria Brandão, fazia uma pesquisa social. São fotos todas legendadas[1].
Thales volta a pintar marinhas a óleo em 1948, quando o casal comprou uma casa de veraneio na Rua Domingos Rabelo, com o fundo voltado para a enseada de Itapagipe. Em uma coroa próxima da casa havia um pequeno estaleiro. Da casa ele pinta embarcações tendo como fundo a pedreira do Lobato. Faz também croquis de saveiros sendo reparados. Paisagem que seria depois obstruída pelas palafitas dos Alagados.
No início da década de 1950, ele coordena com o Prof. Charles Wagley, norte americano, o convênio Estado da Bahia/Columbia University de pesquisa social e visita universidades norte-americanas. Coordena também, em 1960, um seminário sobre mudanças sociais no Brasil na Universidade de Wisconsin Evidentemente, não lhe sobrava tempo para a pintura.
Mas quando sua filha Maria e seu genro, o economista Paulo Rebouças Brandão, faziam pós-graduação em Londres e Glasgow, no final da década de 1960, Thales passa algumas semanas naquelas cidades, quando pinta parques públicos ensolarados e telhados ao crepúsculo de Londres. No início da década de 1970, Thales recebe convite para dar um curso na Universidade de Columbia, em Nova York. A atmosfera cinzenta de inverno daquela cidade não o atrai e ele volta a pintar naturezas mortas e interiores com paisagens urbanas vistas através de janelas.
Aposentado da UFBA em 1968, Thales tem mais tempo para se ausentar de Salvador e passar dias na fazenda Gruta, de sua filha Isabel e seu genro, Dr. Lavaniere Moreno, numa das regiões mais belas e dramáticas da Bahia, Milagres, com seus imensos falos rochosos. Ou na fazenda de sua outra filha, Silvia, e seu genro, Dr. Antônio Rabello Leite, em São Gonçalo dos Campos. Pinta nessas fazendas serranias e casas e capelas rurais.
Nesse mesmo período, Thales volta a se interessar pelo retrato. Pinta D. Mariá e Antônio Bispo, empregado doméstico dedicadíssimo, e fez dois autorretratos. A técnica agora preferida é o acrílico. Realiza também um retrato de Mário Cravo Jr. a grafite, durante uma reunião do Conselho Estadual de Cultura e o completa, em casa, com lápis de cor.
Thales nunca pretendeu ser reconhecido como pintor, se dizia: arredio do soçaite, esporádico pintor dos domingos e poeta bissexto quase inédito[2]. Pintava e desenhava por prazer e como documentarista etnográfico, por isso nunca expôs ou vendeu seus quadros. Por ocasião da comemoração dos 50 anos de publicação de seu primeiro livro, Gaúchos, em 1993, seus filhos organizaram em surdina uma exposição de 60 de seus desenhos e pinturas na Academia de Letras da Bahia.
Este autor publicou na mesma oportunidade, no jornal A Tarde em 2/12/1993, um artigo sobre sua pintura. Revelava-se, assim, pela primeira vez para o público, o artista plástico até então só conhecido por seus familiares. Na oportunidade da realização do Seminário Relendo Thales de Azevedo, organizado pela Academia de Letras da Bahia, UFBA, Associação Brasileira de Antropologia, Fundação Pedro Calmon e Museu de Arte da Bahia, entre 10 e 13 de novembro de 2015, foi feita uma segunda exposição de seus óleos, aquarelas, croquis, fotos e objetos de trabalho no Museu de Arte da Bahia.
Thales de Azevedo, sem perder o foco de sua principal devoção, a antropologia, desenvolveu em paralelo atividades literárias e artísticas que revelam um olhar compreensivo de toda a nossa cultura. Sua pintura não tem apenas valor documental, senão artístico. É surpreendente como ele, um pintor autodidata, tem o domínio da composição, das proporções, da perspectiva, da luz e da sombra e da escala cromática.
Deixo ao leitor a avaliação de sua pintura, mas quero assinalar que nesse campo ele teve a mesma inquietação intelectual que revelou na medicina indígena, na historiografia da colonização, nas relações raciais, na antropologia do cotidiano, na ficção e na poesia, sempre buscando revelar uma visão nova dessas questões.
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[1] - Vide AZEVEDO, Paulo Ormindo (Org.) THALES DE AZEVEDO, a arte de escrever e pintar. Salvador: EDUFBA, 2015.
[2] - Nota autobiográfica de 1987.
